Quarta-feira, Abril 11, 2012

Sangue novo na música sertaneja


JOÃO NETO E CESINHA
A dupla sergipana, João Neto & Cesinha, começou cedo a rodar pelo Brasil, mas, não era na área musical, e sim, como atletas de tênis. Chegaram a ganhar vários títulos e a conquistar o ranking de nº 1 nas categorias pelas quais jogavam. No entanto, a paixão pela música foi mais forte e transformou os planos dos garotos, que passaram a se dedicar inteiramente à nova escolha profissional.
Aos 13 e 15 anos de idade, respectivamente, João Neto e Cesinha compraram o primeiro violão de um professor de tênis que estava indo embora de Aracaju. A partir daí, iniciaram o aprendizado por conta própria. Sozinhos e somente observando os outros tocarem, começaram a cantar por brincadeira nas festas da família e amigos, ao mesmo tempo que ganhavam experiência.
A primeira apresentação ?oficial? já como uma dupla sertaneja ocorreu no Recanto da Paraíba, no Bairro Farolândia, na capital sergipana, em 2009, quando foram convidados pelo proprietário do estabelecimento para dar uma palhinha ? foi nessa ocasião que a dupla foi batizada de João Neto & Cesinha. O sucesso foi imediato e, daí em diante,começaram a tocar em outros bares da cidade.
Ainda em 2009, João Neto & Cesinha conheceram o cantor sertanejo Eduardo Costa, e tiveram a oportunidade de dividir o palco com ele nos Festejos de São Pedro na cidade de Capela. (vídeo no: http://www.youtube.com/watch?v=BHSC7GppUPA)
Em 2010, João Neto & Cesinha conheceram o ídolo da dupla: o consagrado Leonardo, que passou a ser padrinho deles e com quem tiveram a oportunidade de dividirem o palco com em vários shows. O mais recente foi em Propriá (SE) em janeiro de 2012 . (vídeo no: http://www.youtube.com/watch? v=iMGM2zCt96A&list=UUHqM_XsnYwfAoXaUBqYk7MQ&index=4&feature=plcp)
Em 2011, a dupla também se apresentou em vários shows ao lado do cantor Leo Magalhães. Mês a mês, os locais para apresentação e compromissos profissionais foram aumentado, com várias apresentações em programas de rádios e TV da Região, despertando a curiosidade e a aceitação do público. ( video no: http://www.youtube.com/watch?v=t9R3-vv7Umo&list=UUHqM_XsnYwfAoXaUBqYk7MQ&index=39&feature=plcp)
Então, os cantores chegaram à conclusão de que precisavam ter um trabalho próprio, logo, gravaram o primeiro álbum da dupla intitulado ?FESTA DIFERENTE?, repleto de músicas inéditas de compositores renomeados como: Beto Caju, Christian Lima e Marquinhos Maraial, o autor da música ?Zuar e beber? interpretada por Leonardo.
Com um ritmo dançante e animado, a dupla define seu estilo como uma mistura de sertanejo com Arroxa, com músicas para dançar o tempo inteiro com um toque de malícia, mas também com as baladas românticas. Orgulhosos do CD, que é o primeiro fruto dessa parceria, eles destacam as faixas?Tan nhã nhã?, ?Meteorologia? e ?Festa Diferente?.
Hoje, com mais experiências João Neto & Cesinha conseguiu alcançar em todos os shows altos índices de público, deixando em todos um gostinho de quero mais.
Com sua animação, a dupla João Neto & Cesinha iniciou seu trabalho dentro do cenário da música sertaneja, levando alegria e contagiando todos aqueles que acompanham o trabalho dos dois.

Quarta-feira, Março 21, 2012

Raul Seixas ,Uma lenda



por Luciana Ackermann

É dificil encontra alguém que tenha conhecido Raul Seixas e saído desse relacionamento sem alguma história interessante pra contar. Alguns ficam emocionados ao lembrá-las. Outros não param de rir. O Raul que se revela na recordação de seus amigos mais íntimos é uma pessoa de personalidade forte e vibrante, com muito apetite para viver os 44 anos que lhe couberam.
O RAPAZ SEM BRAÇO E O SHOW PARA OS PINGUÇOS

"De repente , chegou um rapaz dizendo que era compositor , tocava violão e gostaria muito de poder mostrar seu trabalho. Mas ele não tinha o braço direito. Ficamos meio sem jeito , olhando para o cara , até que o Raul lhe perguntou : 'Ah, é? E o que o senhor quer que eu faça?' O rapaz , com muita humildade, respondeu: 'Seu Raul, o senhor faz o ritmo e eu as posições'. Não dá para explicar o carinho com que Raul ajudou o rapaz. Ele ficou abraçado, quase pendurado por trás do cara, fazendo o ritmo com a mão direita, enquanto o cara mudava os acordes com a mão esquerda. Foi uma cena linda. "

Essa história foi contada por Mauro Motta, um dos melhores amigos de Raul Seixas. Vizinhos de quitinete, produtores da CBS, Mauro o Raul dividiam muitos pratos feitos durante os primeiros tempos da vida profissional. Período em que Mauro pôde reconhecer bem o caráter de Raul , que incluía o apego às pessoas simples. Outra demonstração disso aconteceu em Guabimirim , no Rio de Janeiro. Os dois ficaram bebendo até pouco mais das 2 da madrugada e depois foram durmir. Mas , por volta das 5 horas da manhã, Mauro acordou e reparou que o amigo havia sumido. "Olhei para toda a casa , por todo o quintal e nada. Então, decidi sair com o carro para procurá-lo. Comecei a ouvir um som de longe, desci e vi um cara magro de calsa jeans, sem camisa , descalço , com um chapéu de São João cheio de fitas coloridas e um violão, catando Elvis Presley no meio de um monte de pinguços. Os caras nem sequer imaginavam que aquele era o Raul Seixas. E ele estava na maior alegria, feliz da vida. Na hora em que me viu falou: 'Tratanius -era a forma como chamávamo-nos - , vem cá tomar uma cachacinha comiho' . E cantou pra galera até o dia amanhecer."
PAPO DE DOIDO, MOLECAGEM NO ALTAR E MENSAGEM PÓSTUMA.

Raul tinha também uma incrível capacidade de surpreender. O cantor Jerry Adriani - responsável pela ida de Raulzito e Os Panteras para o Rio, em 1968 - não esquece uma história.

"Uma vez estávamos passeando em São Conrado e de repente Raulzito sentou-se na calçada e começou a bater papo com um mendigo , que não falava coisa com coisa. O papo nunca terminava. Eu dizia que tínhamos de ir embora , mas ele não queria sair dali e continuou a conversar como se fosse a coisa mais séria do mundo. Eu me aproximei para tentar ouvir sobre oque eles conversavam , mas não dava para entender nada. Ficaram uns quarenta minutos nesse papo doido. "

Noutra época, Raul inventou um personagem chamado Queixada , que ao ficar nervoso trazia o queixo para a frente e falava baixinho. Jerry Adriani conta que aquele jeito de falar virou mania entre os dois. "Ná época em que foi perseguido pelos militares, Raul passou aproximadamente uma semana em minha casa. Mas , num belo dia , sumiu. Saí procurando-o por tudo quanto é lado. Fiquei muito preocupado, pensando que ele poderia ter sido preso.Quando já não sabia mais onde procurá-lo, olhei sem querer para um táxi, em Copacabana, e ali estava o Raul se escondendo de mim ao mesmo tempo em que fazia o Queixada. Perguntei: 'Mas o que é isso , Raul?' E ele respondeu: 'É que lá na sua casa tava muito tranquilo pra mim'."

A história do casamento de Jerry também merece ser contada. A cerimônia, para a qual o noivo convidou apenas as pessoas mais chegadas, tinha uma lista de convidados na qual , por descuido, o nome de Raul acabou não entrando. Quando ele chegou, o porteiro quis empedir sua entrada. Raul não titubeou, disse que era o padre que celebraria a união do casal. Como estava todo vestido de preto , o porteiro acreditou. Jerry conta o final da história: "De repente , começou um tumulto, uma confusão. Fui ver o que acontecia e era o padre de verdade reclamando. Ele dizia ser um absurdo contratar dois sacerdotes para uma mesma celebração. Desfeito o equívoco, apresentei Raul ao padre , que o chamou para ser o coroinha da cerimônia, e deu um sino na mão dele. O casamento rolando e o Raul tocando aquele sino sem parar. O padre não aguentava mais o começou a dizer que aquele menino tinha de ser exorcizado. Para 'salvá-lo', começou a jogar água benta nele , que não perdeu a pose e continuou a fazer graça no altar".

Dois anos e meio atrás, no dia 29 de janeiro de 1997, Jerry Adriani recebeu uma mensagem de Raul Seixas. Dizia o seguinte: "Bicho, foi difícil, mas consegui. Cuide dos que como eu se perdem nas drogas. Meu irmãozinho, a saudade é grande, mas estou bem. Compreendo a vida. Estou vivo. Sempre achei que era assim, mas é muito melhor. Temos que ter responsabilidade com o nosso corpo. Um abraço do seu irmãozinho Raulzito". Era uma mensagem psicografada. Jerry explica: "Frequento um centro espírita no Rio de Janeiro e ali é comum receber mensagens desse tipo. Mas o curioso é que a pessoa que psicografou esse texto é uma senhora de idade, que nem sabe como era a linguagem de Raul Seixas - e ele realmente falava muito 'bicho' e me chamava de irmãozinho".
O PRIMEIRO BASEADO

Leno Azevedo, que gravou com Raul no começo dos anos 70 , lembra de uma vez em que estavam na casa da tia de Raul, dona Maria Angélica: "O filho dela , o Horácio, que é surfista e vive no Havaí , convidou discretamente eu e Raul para ir até seu quarto, colocou Jimi Hendrix para tocar e falou: 'Olha só... Isso aqui é um baseado... Acendeu e passou para a gente'. Depois de fumar, ríamos sem parar. Fumamos outras vezes no estúdio, durante a produção e gravação do álbum Vida e Obra de Johnny McCartney, que acabou sendo censurado. Mas não éramos , o negócio do Raul era só a música, essa imagem de 'doidão' não correspondia à verdade".

Desta faze, Leno não esqueceu os momentos de criação. "Ele vinha aqui em casa e fazíamos músicas bem diferentes dos hits românticos que eu cantava e do ie-ie-ie que ele escrevia e tocava. Queríamos crescer como artistas e mostrar novas possibilidades. Lembro do Raul dizendo que Sentado no Arco-Íris, do álbum de Vida e Obra de Johnny McCartney , era a primeira letra que se orgulhava de ter escrito."
TENTANTO GANHAR RITA LEE EM NOVA YORK

Rita Lee, que interpretou Raul Seixas no curta-metragem Tanta Estrela por Aí, certa vez recebeu dele uma "cantada" em inglês perfeito. "Eu estava andando pelas ruas do Soho, em Nova York, e vi o Raul vindo em minha direção. Ele tinha mania de se passar por americano quando estava no exterior. E não me reconheceu porque eu havia trocado recentemente o loiro de meus cabelos mutantes por um vermelhão. Além disso, estava com óculos escuros e roupa de hippie, daquelas bem rasgadonas.Então , ele passou por mim e começou. 'Hi love , my name is Roger'. Não acreditei, responde: 'Raul, você é bem cara-de-pau mesmo, hein? Vou contar tudo pra sua mulher!' Ele tomou um sustão , mas depois me reconheceu e caímos na gargalhada."

Também uma história de caráter espírita liga Rita a Raul. "Quando faziámos o curta-metragem, ele realmente 'baixou' em mim e eu disparei e falar e desticular igualzinho a ele. Nem eu mesma me dei conta disso. Todos ficaram espantados com a semelhança. O Sylvio Passos, presidente do fã-clube, ficou tão impressionado que me deixou até usar as roupas do Raul que ele tinha. E , para espanto geral, tudo cabia em mim perfeitamente, até a calça de couro e as botas vermelhas. No fim das filmagens, cadê de Raul me deixar me deixar em paz? Eu falava assim: 'Raul , meu amor , agora chega, vamos descansar, vai!' E nada , o cara tava lá instaladão no meu 'cavalo' , e eu sentia o tempo todo , mandei até celebrar uma missa para sossegá-lo. Só depois que fui ao túmulo dele , em Salvador , é que as coisas de resolveram."
DESLIGADO E REVOLTADO

Para o músico mineiro Zé Geraldo, uma das passagens mais emocionantes de sua vida ocorreu durante uma visita que fez a Raul , quando este ainda motava no bairro do Butantã, em São Paulo: "Cheguei à casa do Raul e ele estava superenvolvido com o desenho Jeannia É um Gênio. Não deu a mínima nem para mim nem para o Eduardo, que era de um fã-clube e estava comigo. Ficou deitado no chão com uma toalha enrolado no pescoço , um copo de cerveja e um cálice de steinhaeger ai lado, dando risada com o desenho. Ficamos ali um tempão, meio sem saber o que fazer. Quando já pensávamos em ir embora, ele levantou ,cumprimentou a gente , mas não me reconheceu. Fomo a uma outra sala e ele mostrou a música Não Quero Mais Andar na Contramão, que na época havia sido censurada por falar abertamente do consumo de drogas . Lena Coutinho, que estava junto, falou de mim para ele, para ver se ele me reconhecia. Raul ficou pensativo e olhando-me disfarçadamente por debaixo dos óculos. Quando sacou quem eu era , foi incrível. Pegou minhas mãos, chorou muito e reperiu várias vezes que eu estava lindo. Anos antes, eu havia perdido minha mãe e tinha tido problemas seriíssimos com a bebida. Fiquei muito mau. Mas , quando estive na casa de Raul, estava completamente sem beber. Esta foi uma passagem inesquecível da minha vida".

No final dos anos 70, início dos 80 , Zé Geraldo e Raul gravaram na CBS e os dois geralmente saíam juntos para divulgar seus discos. Numa dessas vezes, foram a uma rádio no ABC. "De quadra em quadra , Raul tirava uma garrafinha do bolso e bebia. Naquele dia, ele estava revoltado com alguma coisa e , quando chegamos à rádio, fez o maior discurso político . Depois disso , o divulgador suspendeu a agenda e o levou ao hotel. Mas , quando cheguei à CBS, a secretária disse que Raul estava na Jovem Pan metendo o pau no sistema , fazendo o mesmo discurso de antes."
INTERNADO DURANTE A PRODUÇÃO DE COWBOY

Rick Ferreira, chamado por Raul de "Rickinho, meu fiel escudeiro" , foi o guitarrista que mais tempo tocou com o Maluco Beleza. Conta que , durante a produção do disco Cowboy Fora da Lei, em 86, precisou ir várias vezes à Clínica Tobias, onde Raul permanecia internado por causa do alcoolismo. "Chegou a um ponto em que não podia mais sair de lá para ir ao estúdio, porque sempre convencia o motorista a parar nos bares do caminho e já chegava bêbado na gravadora", explica o "escudeiro" . Rock Ferreira revela que nessa época evitava fazer shows com Raul: "Tinha 21 anos , meu negócio era tocar. Ficava com muito medo da polícia. Sempre tinha uns caras de terno que ficavam bem na frente do palco durante os shows. Raul era um cara inocente, mas passava agressividade na época da Sociedade Alternativa".
INSUCESSOS COM RONNIE CÓCEGAS

Outro amigão de Raul foi o humorista Ronnie Cócegas. Moravam na mesma rua, frequentavam a mesma escola de música, os mesmos bares e restaurantes, jogaram capoeira e fizeram vários shows junto. "Tocávamos em Feira de Santava e em Itabuna. Não tinhámos nem nome e não faziámos sucesso nenhum" , contou o humorista.

A Mãe de Raul , dona Maria Eugênia, pedia que Ronnie diexasse seu filho em paz, pois não queria que ele virasse artista. Ronnie guardou a lembrança: "Ela queria que Raul fosse para os Estados Unidos, estudar e se tornar doutor. Mas eu dizia que não era eu quem o levava, era o Raul que adorava música e era ele quem me chamava para tocar. De fato , eu era baterista de uma banda que tocava numa boate de hotel em Salvador e o Raul sempre assistia às apresentações escondido em um cantinho, pois era menor de idade e não podia frequentar o lugar". ( Este depoimento foi dado pouco antes da morte do humorista. )
ASSUSTADOS NA SELVA

O músico Nenê( dos Incríveis , que tocou com Raulde 85 a 86 ) lembra de uma vez em que foram para a selva amazônica, no meio do garimpo, fazer um show. "Bebemos durante a viajem inteira. Foi preciso até pegar um jato e depois um Bandeirantes daqueles que agente senta no chão. O lugar onde nos apresentamos era um puteiro horroroso. Não sei de onde surgiu essa idéia de irmos para lá, mas , como tínhamos bebido todas , estávamos levando tudo na brincadeira. Até o momento em que vimos que todos ali andavam com um 38 na cintura. A bebedeira passou rapidinho. Até o Raul ficou careta. E fizemos o show bem direitinho."

Para Nenê, nenhum artista tem atualmente o carisma que Raul tinha: "Já toquei com figuras como Roberto Carlos e Elis Regina, mas nunca vi nada tão forte como o que acontecia com Raul Seixas. Uma vez ele deu a maior canceira na gente em um show em São Caetano. O clima era muito tenso. O público já havia quebrado o alambrado. Não , da banda , estávamos na maior neura. Coloquei meus filhos , que era crianças, em clima da caixa de som. De repente , chega um Fusca branco no meio do estádio lotado. Todo mundo parou. Quando Raul saiu daquele Fusca, vestindo um terninho branco , parecia que tinha chegado um deus".
SUCO DE VODCA E MCDONALD'S

Marcelo Nova , que acompanhou o início da carreira de Raul na Bahia como fã e depois tornou-se parceiro e amigo , relembra que ia aos shows do Raulzito e Os Panteras para ouvir Rock`n`Roll e "pegar umas menininhas" , mas que no final acabava chupando o dedo porque só Raul e seus panteras é que se descolavam. "Elas só queriam dar para eles. Raulzito fazia o maior sucesso".

Em 72, Macelo tomava água de coco numa praia de Salvador, quando chegou um magricela cantando: "Eu devia estar contente. Porque eu tenho um emprego. Sou um dito cidadão respeitado..."."Não reconheci o cara mas achei aquilo um grande barato. Na hora até pensei que fosse o Odair José. Só depois , quando ouvi a música inteira no carro , consegui pegar a letra e sacar que aquele cara era o Raul".

Apesar de toda essa afinalidade musical, Marcelo Nova e Raul Seixas só foram se tornar amigos em meados dos anos 80: "Num belo domingo , umas 11 horas da manha, ouço a campainha, abro a portae lá estão Raul , Lena Coutinho, Toni Ozannah e sua mulher. Havíamos trocado endereço naqueles dias num show dele, em São Paulo, mas nao imaginava que pudesse pintar em casa. Posso dizer que foi ali que se iniciou nossa amizade. Passamos o dia inteiro juntos e uma semana depois retribuí a visita. Era aquela troca de figurinhas, em que cada um falava sobre os discos e músicos que gostava . Nos reuníamos para ouvir rock`n`roll. Era maravilhoso. Pouco depois fizemos juntos a música Muito Estrela , Pouca Constelação , referente àquelas várias bandas de rock que surgiram nos anos 80. Depois de dois anos começamos a fazer várias músicas que resultaram no disco A Panela do Diabo".

Marcelo também não pode deixar de comentar o fraco de Raul por um drinque, e conta a resposta que recebem dele certa vez, por tê-lo censurado por beber de manhã: "Porra Raul, você já vai beber?" 'Ô , Marceleza, é só um suquinho...' Na verdade era um copão de vodca com umas gotas de suco de laranja . Aí, para me sacanear , porque não bebia e não bebo nada, ele dizia: 'Deixa eu tomar meu suco que depois vou ao Mac Donald's com você , tá?' Nos shows , ele também reclamava: 'Porra , Marceleza , só tomam água aqui nessa merda".
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Quinta-feira, Março 15, 2012

Entrevista Concedida por D. Maria Eugênia, mae do Raul Seixas.

                                                               Dalva,Raul e Dona Maria Eugenia


Entrevista Concedida por D. Maria Eugênia,
Mãe de Raul, à revista Caros Amigos, em 1999
Caros Amigos - Como era o Raul na infância, em Salvador?

D. Maria Eugênia - Raulzito sempre foi um menino muito inteligente e travesso. Ele usava o irmão mais moço, o Plínio, para as artes dele. Tinha mania de pegar os cadernos do colégio e fazer histórias e desenhos e depois os vendia ao irmão. Isso só pela farra, pela brincadeira, porque não ligava para dinheiro. Ficou três anos na 1ª série. Perdia o ano de tanto que faltava. Fugia do colégio e ia para uma casa que chamava Cantinho da Música para ouvir Elvis Presley. Raulzito também era muito amoroso e apegado à família. Adorava o irmão.Caros Amigos - Ele sempre teve alguma relação com a música?
D. Maria Eugênia - Sempre. Naquele tempo ele tinha um gravador de fitas de rolo e gostava muito de ouvir baião e música cubana. Dizia que baião era igual ao ritmo de Elvis Presley. Dizia que Luís Gonzaga e Elvis Presley eram muito iguais. Desde pequeno falava que um dia iria colocar sua mão no cimento, entre os artistas de Hollywood, na Calçada da Fama. Com doze ou treze anos já fazia shows no interior da Bahia. Ia de ônibus comum, ele mais os irmãos Thildo Gama e Décio. Cantavam também em um programa de calouro lá em Salvador, mas o apresentador meteu o gongo neles.Caros Amigos - Como a senhora reagiu ao perceber que seu filho seria um artista?
D. Maria Eugênia - Era totalmente contra, Ave Maria! Meu Deus! Quem é que queria que um filho fosse artista? Naquela época, artista não tinha o menor valor. Eram boêmios e boas-vidas. Batalhei um bocado para que ele não fosse artista, eu e o pai, Raul Varella Seixas. Queria que ele fosse diplomata. Raul tinha muito jeito para isso, pois era educado, delicado, sabia falar inglês. Daria um diplomata de primeira. O consulado americano era perto de casa e ele não saía de lá, conviveu com americanos direto, a vida toda. Tinha paixão por eles. Cheguei até a mandar falar com o Itamarati, mas ele não aceitava, não. Dava bem mesmo, cantando Maluco Beleza (risos).Caros Amigos - Mas o pai tinha uma ligação com a música, não?
D. Maria Eugênia - Tinha, gravou duas ou três músicas. Também lançou um livro de poesias e contos. Tocava acordeão em casa, mas não pensava em ser artista.Caros Amigos - Eles tocavam juntos?
D. MAria Eugênia - Tocavam, cantavam... tenho fitas gravadas com os dois tocando e cantando juntos. Raulzito também gravou três músicas do pai, minha Viola, Lá Vai o Meu Sol e tem outra, não sei o que lá do meu coração (Coração Partido), ando muito esquecida. O Raulzito era muito inteligente, as músicas que ele fazia dava como parceria aos amigos ou mulheres com quem vivia na ocasião. Fazia isso por causa do Imposto de Renda. Inclusive o Paulo Coelho, que só dava umas pinceladas nas músicas e hoje se diz autor de muitas. É conversa fiada. Não gosto de falar o nome dele, eu tenho minhas queixas e mágoas. Paulo Coelho enganou Raulzito desde essa época.
Caros Amigos - Como assim?


D. Maria Eugênia - Paulo e a mulher dele faziam panfletos contra os militares e aproveitavam os shows de Raul para distribuir. Meu filho precisou ir correndo da casa dele para a casa de minha irmã Maria Angélica para se esconder de madrugada porque a Polícia Federal estava atrás dele. Em uma ocasião, Raulzito chegou com as costas todas marcadas, sujas de sangue. Eu não deixei ninguém ver meu filho assim, não. Falei para ele entrar no banheiro e ficar de cueca e lavei suas costas e coloquei remédio. Mas ele diz que não poderia demorar muito, porque tinha de se vestir e viajar. Paulo Coelho foi quem buscou Raulzito para levar ao aeroporto, pois os militares mandaram ele para fora, com o visto de ida sem volta. Raul passou um ano nos Estados Unidos. O pai de Edith, sua primeira mulher, colocou um detetive para procurá-lo, ninguém sabia onde estava, porque não tinha permissão de se comunicar com o Brasil, os militares eram fogo. Depois Gita estourou. Fez um sucesso danado. Gita foi que trouxe ele de volta. Os militares não tiveram jeito, tiveram que mandar buscá-lo.Caros Amigos - O que a senhora destacaria além da inteligência de Raul?

D. Maria Eugênia - Era muita amoroso, não ligava para preto, branco, pobre, rico, abraçava todo mundo, beijava todo mundo, mesmo antes da fama. Uma ocasião, eu vi Raul fazer uma coisa que Kika (último casamento do Raul) ficou chateada. Eu, Kika, Raul e o empresário estávamos saindo de um show pelos fundos do Teatro Pixinguinha, estava um frio danado, Raul viu um velho dormindo no chão, todo lascado, tirou o casaco dele e cobriu o velho. Kika disse: "Mas você vai dar o casaco de visom para ele?" Era um casaco cor-de-rosa que ela havia comprado para Raulzito nos EUA. Ele respondeu que aquele velho precisava mais do que ele e que depois comprava outro.Caros Amigos - Ele era sempre assim?

D. Maria Eugênia - Toda a vida. Não tinha apego a dinheiro e às coisas materiais. Raulzito não levava um tostão no bolso, e eu dizia: "Mas, meu filho, você vai sair sem dinheiro?" E ele perguntava: "Pra que eu quero dinheiro? Pagam tudo para mim, não preciso de dinheiro, não". As mulheres dele é que administravam as contas do banco. E doutor Hélio, que era advogado dele, comprava ações na bolsa tanto de São Paulo como do Rio.Caros Amigos - Como era a sua relação com ele? Ele ligava sempre para a senhora?

D. Maria Eugênia - Ele sempre ligava para mim mesmo de madrugada e dizia: "Minha mãe, acabei de fazer um show, amanhã de manhã eu estou aí, mas não fico em Salvador, não. Vou para a chácara, não quero jornalista junto de mim".Caros Amigos - A senhora se lembra de alguma música que tenha referências da infância e adolescência do Raul? Parece que O Trem das Sete realmente fez parte da vida do Raul.

D. Maria Eugênia - É verdade. Tínhamos uma casa de veraneio em Dias D'Ávila, a uns 60 quilômetros de Salvador. Naquele tempo, a estrada de rodagem era péssima, de barro. Meu marido era engenheiro da estrada de ferro da Rede Ferroviária Federal e costumávamos ir de Salvador para aquele lugarejo de trem, e era o trem das 7, que se chamava "Pirulito". É a saudade do trem das 7.Caros Amigos - Tem mais alguma música que tenha relação com a infância ou adolescência de Raul?

D. Maria Eugênia - A Menina de Amaralina, mas essa ele não gostava nem de cantar. Dizia que era uma porcaria. Foi uma música que ele fez para a namorada, a Edith, que morava em Amaralina.Caros Amigos - É verdade que ele teve uma briga com o Sílvio Santos?

D. Maria Eugênia - É, sim. Ele foi ao programa do Sílvio Santos e, quando chegou lá, abriu a capa, feita por Edith, e botou o peito nu para fora. Quando chegou no camarim, o Sílvio deu a maior bronca, dizia que era imoral ele botar o peito de fora. Aí começaram a discutir e foram aos tapas... Bem onde, hein? Porque hoje esse programa mostra tanta porcaria e mulher nua.Caros Amigos - E quanto à relação dele com o álcool e as drogas, como a senhora reagiu e de que forma tomou conhecimento disso?

D. Maria Eugênia - Me chocou demais. Raul ligou para eu ir ao Rio de Janeiro, disse que Kika tinha sofrido um aborto e que eu precisava ficar com ela. Mas quando chegávamos do aeroporto já tinha três ou quatro homens esperando para prendê-lo. Eu perguntei por que, e a empregada dele, que eu tinha trazido de Salvador, contou que Raulzito estava metido com drogas. Depois ele começou com o álcool. Largou a droga toda e passou a beber, tirou parte do pâncreas e morreu alcoólatra. Precisei procurar um psiquiatra em Salvador, porque foi uma barra pesada o que passei. Com tudo isso, acabei ficando muito doente, muito nervosa, não dormia mais. Cansei de dar socorro, as mulheres dele me ligavam quando ele estava no auge do álcool ou da cocaína. Precisei sair de Salvador e interná-lo umas dez ou quinze vezes. Em uma ocasião, ele deu para cheirar éter e ficava doido. Ele estava casado com Kika. Nessa época, moravam no Itaim, em São Paulo, foi horrível. Ela me telefonou e disse que a situação estava péssima. Até o gato da vizinha não se agüentava em pé, o gato estava viciado.Caros Amigos - E como ele reagia a cada internação?

D. Maria Eugênia - Muitas vezes ele nem sabia do que se tratava. Estava lá com a cabeça para outro lado... Em uma ocasião, ele fez uma comigo que foi horrível. Não queria ir de jeito nenhum ao hospital, mas o médico disse que primeiro ele tinha de tomar soro e glicose para diminuir o éter. Nisso, deu uma injeção nele disfarçada para ficar meio mole e inventou que eu estava passando mal. Precisei sair do médico de maca. E só assim ele foi ao hospital, agarrado na minha mão, com medo que eu tivesse alguma coisa. Em outra situação, Raul pegou a chave do apartamento e escondeu dentro da meia. Depois que o deixei na clínica, cadê a chave? Nada da chave, e acabei sendo hospedada pelo vizinha.Caros Amigos - A senhora consegue identificar o momento em que a situação ficou incontrolável?

D. Maria Eugênia - Em São Paulo a coisa foi pior. Ele se achava no auge e quanto mais ele subia, mais ele bebia, mais tomava droga. Mas o psiquiatra de Salvador dizia que ele se jogou ao álcool e às drogas por trauma, paixão, porque deixou Edith. Raul a amava muito. Quando o negócio da repressão estourou e precisou ir embora, largou ela por outra, a Gloria, que vive nos Estados Unidos. Mas, além de abusar das drogas e das bebidas, ele era diabético desde os trinta anos e tinha horror a tomar insulina.Caros Amigos - Tinha que tomar insulina sempre?

D. Maria Eugênia - Muitas vezes não tomava, dizem que ele morreu de madrugada por isso. Dalva, que era a secretária dele, contou que Raulzito não estava passando bem, dormia muito. Ele entrava em coma diabético direto, por causa da falta de insulina. Tomava da mais forte, porque a diabete dele era muito alta. A secretária avisou-me que chamou um médico, mas que era necessário fazer alguns exames na segunda feira. Porém, Raulzito falou que não ia e que queria ver a Kika. Nisso, Dalva foi embora para passar o fim de semana em sua casa e na segunda-feira, dia 21 de agosto, esperou até umas 9, 10 horas da manhã, viu que Raulzito estava demorando a se levantar, pois geralmente acordava cedo. Ela disse que abriu a porta, espiou, e ele estava deitado com o peito de fora, muito pálido. Entrou na ponta do pé e fechou a janela, ele já estava morto, mas ela não viu, fechou a janela, telefonou para o Marcelo Nova, ele não estava. Aí telefonou para o Jerry Adriani, mas o pai dele tinha morrido havia poucos dias e ela não achou o Jerry. Então telefonou para José Roberto Abrahão, um advogado muito amigo dele, que participou do disco A Pedra do Gênesis, e ele disse que ia, mas ia levando o médico. Quando o médico chegou, disse que Raul já tinha morrido, no meio da madrugada.Caros Amigos - E como a senhora ficou sabendo?

D. Maria Eugênia - Dalva ligou para o doutor Hélio, que avisou meu filho, Plínio, que foi lá em casa com uma amiga minha, e também já tinha chamado o psiquiatra. Me deram uma injeção, colocaram-me para dormir e perguntaram se eu queria que ele fosse enterrado em São Paulo. Mas não quis, não. Disse que queria ver meu filho mesmo morto. Ele está sepultado no Jardim da Saudade, em Salvador, uma sepultura só dele, roubaram cinco lápides, foi preciso mandar pregar uma de cimento.Caros Amigos - Dizem que no dia do enterro, em Salvador, o povo começou a levar o caixão. Como foi isso?

D. Maria Eugênia - Pelo amor de Deus! Um tumulto tão grande, quase jogam Plininho e minha neta dentro da sepultura, uma coisa horrível. Empurraram eles, todo mundo querendo pegar o caixão; eu não terminei de assistir à missa de corpo presente, meu marido já estava doente; começaram a dar murros na tampa, queriam abrir o caixão, já na hora de enterrar. Foi um horror, tinha mais de 5.000 ou 6.000 pessoas no enterro.Caros Amigos - Seu filho virou um mito, como é isso para a senhora?

D. Maria Eugênia - É, um deus, não me largam. Pessoas do Brasil inteiro telefonam e escrevem para mim. É de Goiás, Brasília, Rio Grande do Sul, Rondônia, nem sabia que existia Rondônia, no meu tempo não havia, não. O pior é quando me ligam de madrugada, a cobrar, já pensou? Lá dos infernos, que eu não sei nem de onde estão me ligando. Eu digo: "Meu filho, eu estava dormindo, que é que você quer?" "Ah!, eu queria saber se Raulzito fazia isso ou aquilo." Eu digo: "Deixe pra amanhã, até logo". Acho que é um pessoal que está se divertindo na noite, conversando sobre Raulzito.Caros Amigos - O Raul, além de ser um artista, um músico, mostrou uma nova proposta de vida às pessoas, por exemplo, com a música Sociedade Alternativa. Como a senhora avalia isso?

D. Maria Eugênia - Aliás, muita coisa que o Raulzito falou está acontecendo, esse negócio de aluga-se o Brasil é uma realidade. Muitas outras coisas que vemos hoje em dia ele já havia dito em suas músicas. Era meio profético, e muito inteligente.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2012

Moraes Moreira e o problema da música do Carnaval


por James Martins
Quando ‘Toda Boa’, do Psirico, ganhou a ‘Música do Carnaval’ quase assistimos a um enfarto de Bell Marques. O barbudo do Chiclete brigou até o fim pela sua ‘A Fila Andou’. Mas não teve jeito, foi a primeira vez que a fila desandou e um pagode ganhou o prêmio: era 2008. Já no ano passado eu avisei aqui mesmo, com antecedência: ‘Mulher Maravilha vai ganhar por W.O.’. E ganhou. E nem Bell, nem Cláudia Leitte, nem Ivete Sangalo... ninguém nem ligou. Ora, por quê? Simples: faz tempo que a música deixou de ser o foco dos grandes artistas-empresários do carnaval baiano. Bell ocupado demais em criar barba para vender à Gillette, Cláudia Leitte com imitar Ivete, Ivete vendendo de tudo: desde passagem aérea até chinelo, passando por boneca, caldo de galinha, móveis, imóveis, o diabo! Enfim, música que é bom, nada. A aridez da Axé Music é coisa para alimentar três desertos. E por falar em deserto, no último sábado (4), aproveitei as ruas esvaziadas pela greve da polícia militar e fui passear com Lelê: uma delícia. O Porto da Barra limpo, as ruas tranqüilas, o trânsito leve. À noite fomos até o Clube Fantoches (2 de Julho) para o ‘Moraes Carnaval Moreira’, o ensaio de verão do grande cantor e compositor baiano que é, entre outras coisas, o primeiro vocalista de trio elétrico da história. Lá estava Moraes acompanhado de sua banda, de suas canções, do genial Davi (filho e parceiro), de Pepeu Gomes (convidado especial) e de uma multidão de fãs, inclusive nós. O show foi ótimo, mas não é isso o que eu quero dizer. Eis o que quero dizer: Moraes Moreira lançou duas novas canções feitas para a festa deste ano, ‘Raças e Religiões’ (uma típica marcha-frevo das suas) e ‘Feito Jorge Ser Amado’ (um samba em homenagem ao escritor que completaria 100 anos neste 2012). Duas! Pois bem, sabem o que vai acontecer? Nada.
 
Basta lembrar, querido leitor, que no ano passado Moraes também lançou música feita para o carnaval, ‘Bahia Você é Minha Porra’, e que você já esqueceu, se é que ouviu. Basta lembrar ainda que no ano anterior (2010), pelos 60 anos do Trio Elétrico, ele lançou outras duas músicas que, além da evidente alegria que legaram à sua elegante e animada pipoca (inclusive nós), passaram quase despercebidas. E novamente eu pergunto: por quê? E novamente respondo: porque não tocam. Nem no rádio, nem na tevê, nem nos outros trios, nem em lugar nenhum desse deserto sitiado e loteado. As composições dele, por isso mesmo, nem sequer são mencionadas para o concurso (bastante desmoralizado, é verdade) que escolhe o melhor da folia. Sinceramente, acho que Moraes Moreira já não precisa provar nada a ninguém. Acontece que este total descaso para com as suas músicas é que prova (involuntariamente) a incompetência dessa renca toda (o Word sugeriu que a palavra ‘renca’ é um erro e que pode ser substituída por ‘renda’: programinha esperto). É como se houvesse uma bolha que isola não apenas alguns do lado de fora, mas também todo mundo do lado de dentro. E um lado só existe por causa do outro lado. Aliás, a Bahia é a terra, tradicionalmente, onde todos os lados são um lado só. E o carnaval era para ser a radicalização dessa tendência. Mas os radialistas não se dão nem ao trabalho de tocar as “outras” músicas, só as mesmas. Mesmo que essas mesmas não consigam tocar ninguém, nem mesmo aos chicleteiros mais mastigados. Lastimável. Porém, na minha opinião, o pior mesmo é a postura dos artistas. Já que no carnaval a prática (que eu adoro) é todo mundo cantar a música de todo mundo, porque é que Durval, Márcio Victor, Tomate e companhia não cantam as músicas de Moraes Moreira? Será que não conhecem? Se é isso, Lelê e eu vamos levá-los ao próximo ensaio, dia 11 (sábado), no mesmo bat-local. Ou será que acham as músicas ruins? Ou será que acham as músicas boas demais? O que será que será? São perguntas que faço, sem achar resposta.
 
A verdade é que essa postura é deveras representativa dos males que acometem a nossa cidade e a sua festa maior. Esse ensimesmamento abominável, essa separação imbecil, o comercialismo desvairado, essa pressa, esse papo torto de segmentação e universo paralelo. E pensar que o lema do carnaval já foi “pode misturar”. Quero alhos e bugalhos. Houve quando uma música do Chiclete com Banana (o próprio nome da banda vem de um sucesso de Jackson do Pandeiro que fala de mistura) tirava onda com um sujeito cri-cri que não “dança[va] uma lambada, só valsa de Strauss”. Eu, que ganhei vários concursos de lambada na infância, adorava. Mas hoje, quando dizer Strauss dentro da corda do Camaleão é como falar alemão, fico achando que essa lambada de serpente que morde o próprio rabo tá precisando dar uma folga e uma folgada. Não basta ter o FatBoy Slim em cima do trio, é preciso romper as cordas, as barreiras, as blindagens, os coletes à prova de balas que nos desunem o ano inteiro. Acabar com esse papo de alternativo: a gente nasceu aqui, minha gente. Não adianta baixar as cordas em um dia numa mal arranjada ação de marketing que só indica desespero. É preciso também fazer música. Música no sentido de arte, como Bell já fez tão bem, lembram? “A Praça Castro Alves é do povo. / Mas Kilkerry da Rua do Cabeça / já dizia: Olhos novos para o novo”, no refrão do super paulista Augusto de Campos. “O antigo que foi novo é tão novo quanto o mais novo novo”, do mesmo. E por falar em trio sem corda, isso Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar já fazem há séculos. Parece mesmo que o destino dos Bells Marques tornou-se correr atrás, na retaguarda. Assim sendo, que pelo menos tirem as músicas novas do eternamente novo e baiano para tocar este ano. Nem que seja como mais um drible de marketing. O que não dá é continuar como está, essa auto-suficiência cada vez mais insuficiente. Já que em 2012 o mundo se acaba, que a gente comece refazendo o nosso carnaval em cada esquina, de Ubarana a Amaralina que alucina a multidão

Sexta-feira, Janeiro 06, 2012

Compositores de 'Ai, Se Eu Te Pego' devem faturar R$ 3 milhões com hit, dizem especialistas

“Nem Teló tinha como imaginar esse sucesso! Depois de três anos de criada, a música ganhar o mundo inteiro”, diz o advogado e professor de inglês feirense Antonio Dyggs, 28 anos, um dos criadores do megahit, ao lado da animadora Sharon Acioly, 41, carioca nascida nos EUA e que mora há 15 anos em Porto Seguro. É, a música ganhou o mundo na voz do paranaense Michel Teló, 30, mas nasceu aqui.

Axé Moi 
“Quando o vídeo do Teló bateu 1 milhão de acessos em uma semana, sabia que ia ser hit nacional”, afirma Sharon. A certeza é baseada na sua experiência com a Dança do Quadrado, hit nacional da web e das festinhas, em 2008, também de sua autoria.

Antes de chegar a Feira de Santana, onde ganhou sua versão atual, “a pegada” era gritada por Sharon, em ritmo de funk, no palco da barraca de praia Axé Moi, pelo qual era responsável até pouco tempo. Ela  criou o sistema de entretenimento que se firmou em Porto Seguro, com palco e programação de  música, dança e brincadeiras.

Foi lá, em 2008, que Dyggs  ouviu o refrão. “Já em Feira, me veio a ideia de usar para fazer um forró”, explica o compositor. Dito e feito, ele entrou em contato com Sharon, ela gostou da nova música, e eles firmaram a parceria.  
Dono da casa de shows Kabana’s, em Feira, ele testou a música com a banda de forró que empresaria, a Meninos do Seu Zé. “Ai, Se Eu Te Pego já era sucesso em Feira e nas cidades da  região desde 2009. Todo mundo tinha no toque do celular”, diz, entusiasmado,  o orgulhoso ‘pai’.

Só em 2010 a música chegou à banda de forró soteropolitana Cangaia de Jegue. “Eles pediram para gravar a música, e a gente liberou”, conta Dyggs. Com a Cangaia, a música torna-se conhecida na capital, mas só pegou no Brasil - e no mundo - com Michel Teló.

Hebraico
“Mandei essa música pra muita gente, e recebi muita porta na cara. Mas o Teló entendeu bem o que a gente queria”, recorda Dyggs. O sertanejo pop ouviu o forró por acaso, em Cruz das Almas, quando uma moça da produção passou cantarolando. Procurou saber de quem era, e chegou à dupla. 
“Teló  é uma pessoa incrível. Entrou em contato, gravou a música, e está dando uma impulsionada violenta na nossa carreira”, elogia Sharon. O paranaense levou os dois e a Meninos do Seu Zé para São Paulo, no lançamento de sua versão sertaneja - e mais acelerada da música-, quando se conheceram pessoalmente.

Sucesso no Brasil, a escalada mundial começou com superestrelas do esporte, como o jogador de futebol português Cristiano Ronaldo, o tenista espanhol Rafael Nadal e o brasileiro Nenê e outros jogadores de basquete do Denver Nuggets, da NBA. Foi só “os caras” aparecerem fazendo a dancinha da música em comemorações, que Teló “pegou o mundo de jeito”.

A partir daí, foi um avalanche de versões e repercussões. No YouTube, já tem gente cantando em idiomas como  o inglês, o polonês, o grego, o holandês e o hebraico. Matéria na conceituada revista americana Forbes e capa da Época...  Vídeo de soldados israelenses dançando... E Bruno Medina, da Los Hermanos, polemizando, ao ironizar o sucesso...

R$ 1,5 milhão
Com todo o Verão brasileiro - e o mundo - pela frente, Ai, Se Eu Te Pego ainda deve dar muito pano pra manga. Mas o  que todos querem saber agora  é quanto os criadores baianos do sucesso - que detêm o controle total da música, decidindo sobre cada novo passo da canção - vão embolsar.

Segundo informações de profissionais do meio musical, só com a execução no Brasil, nos últimos seis meses, Antonio Dyggs e Sharon Acioly ganharam R$ 240 mil, cada. No fim de tudo, quando o “bicho pegar” mesmo, em escala planetária, será em torno de R$ 1,5 milhão, no bolso de cada um. “Digamos que a gente tá confortável”, responderam  quando perguntados sobre cifr
as. Haja conforto!

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

A HISTÓRIA POR TRÁS DO HIT AI SE EU TE PEGO DE MICHEL TELÓ


Banda Cangaia de Jegue, primeira a gravar a música, diz que não ter ciúmes do sucesso de Teló

Conhecido internacionalmente, o refrão-grude do hit "Ai se Eu te Pego" tem nome, sobrenome e razão de ser. A música, sucesso sem fronteiras na voz do paranaense Michel Teló, nasceu em 2008 e tem raízes fincadas, quem diria, no funk: a baiana Sharon assina a canção, que foi executada pela primeira vez em Eunápolis, no interior da Bahia. 

Quem conta a história de "Ai Se eu Te Pego" é o cantor Norberto, da Cangaia de Jegue - grupo que estorou o hit a nível local. " A primeira versão da música era um funk, lançado por Sharon, que assina a letra. Conheci em 2009, já que fui um dos dançarinos do grupo dela", conta em entrevista ao iBahia." Antônio Dyggs é responsável pela versão forró. Ele pegou o refrão e adaptou pro ritmo em que hoje é conhecida", relata.

No atual formato, a música foi parar, em meados de 2009, na voz de Norberto. "Experimentamos em diversos shows, e resolvemos gravar. Como já conhecia tanto Sharon quanto Dyggs, já que tocamos na fazenda dele algumas vezes, não pagamos nada pelo direito de executar a música", diz. O sucesso de "Ai se Eu te Pego" veio atrelado à dancinha típica, também protagonizada pelo Cangaia e seus dançarinos nas apresentações. "Acho que o refrão fácil, a dancinha, o ritmo, tudo contribui para a popularização da música", conta o vocalista do grupo
Michel Teló e o Hit
Não foge do normal dois artistas gravarem o mesmo hit e fazerem sucesso. Mas, como Michel Teló e Cangaia de Jegue trabalharam a música mais ou menos na mesma época, fica a dúvida: a maior repercussão na voz de Teló, que gravou um ano e meio depois do Cangaia, causou ciúmes no grupo baiano? Segundo Noberto, a resposta é não. "Houve um investimento absurdo do Teló nesse hit. Por trás dele há uma gravadora, contratos com grandes mídias e um esquema muito pesado de divulgação. É um dinheiro que a Cangaia não tinha para investir. Então, é mérito dele todo sucesso que fez", explica. Sem dores de cotovelo, Norberto sabe reconhecer a participação da Cangaia na popularização da música. "Somos responsáveis pelo estouro a nível local. Na Bahia e em alguns estados do Nordeste, as pessoas associam o hit ao nosso grupo", conta. 

E pra provar que o mercado da música é mesmo algo complicado, a Cangaia de Jegue confirma que o fato de Teló ter feito sucesso com o hit, mesmo tendo sido antes gravado por eles, ajudou a alavancar a banda. "No Youtube, nosso vídeo já tem mais de 3 milhões de visualizações. Quando as pessoas assistem o Teló, vêem nos vídeos associados e ficam curiosos para conhecer nossa versão", conta. Contrato com gravadora, música na voz de outros cantores nacionais e gravação de novo disco estão nos planos do grupo baiano. " Guilherme e Santiago querem gravar uma de nossas músicas. Quanto ao novo CD, estamos gravando, e deve ser lançado pela Som Livre em março deste ano", diz. Shows no eixo Rio-São Paulo também estão sendo negociados pela produção da banda. Por enquanto, os meninos tem apresentações agendadas para o dia 7, em Brumado, e 14, em Madre de Deus, interior da Bahia. 

"Ai Se eu Te Pego" versão Cangaia de Jegue:



Domingo, Dezembro 25, 2011

Venda de música brasileira em formato digital dobra com o lançamento da iTunes Store


Dentro do catálogo da ONErpm no iTunes, há nomes populares como Chitãozinho & Xororó e Erasmo Carlos, mas também da cena independente, como Kassin, EDINEIA MACEDO,Karina Buhr e Autoramas, entre outros. Inaugurando com um catálogo de 20 milhões de títulos no Brasil, a Apple promete que a nossa versão da iTunes Store será bem completa, contando com acordos com as grandes gravadoras nacionais e selos independentes. Ivete Sangalo, Marisa Monte,Edinéia Macedo e a estreia digital do catálogo de Roberto Carlos estão entre os destaques citados pelo comunicado de lançamento divulgado pela empresa.
http://itunes.apple.com/br/album/edineia-macedo/id489567774

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

Edineia Macedo conquista o Brasil


Edineia Macedo assina com Radar Records e conquista o Brasil

Edineia Macedo chegou de mansinho. Vinda lá de Mutuípe (BA), ela e conseguiu conquistar o Brasil. Isso mesmo. Quem duvidar, pode sair por aí, em qualquer praça do território nacional e questionar as pessoas na rua. Quem não conhece o hit Garota na Chuva?

Sua história começou quando apareceu no Programa Eliana (SBT). Logo após, o jornalista Zeca Camargo, apresentador do Fantástico (Globo), levantou a bola da cantora em seu blog no portal G1. Quem chutou e fez o gol foi o programa Pânico (Rede TV). A atração percebeu que Edineia tinha talento e fez um reality show sobre a vida da cantora – a apresentando até ao produtor Franco Scornavacca. Após ajudar o programa a conquistar alguns pontos no Ibope, ela resolveu seguir seu caminho e respirar novos ares. Para isso, Edineia contou com a ajuda de sua família e de seu empresário, Carlos Amorim.

Nessa nova fase, a artista conseguiu silenciar a todos os apresentadores e produtores de TV que a ridicularizaram em rede nacional ao lançar o CD Uma Pop Star, que sai em parceria com a Radar Records. Carlos Amorim adotou a estrela e a lapidou, feito um diamante bruto. Corrigiu concordâncias verbais de suas letras, teve o cuidado de modificar arranjos - sem perder as características originais da artista - e, ainda por cima, fechou apresentações em programas de TV de grande audiência.

O álbum Uma Pop Star sai com 13 músicas que marcaram a trajetória regional de Edineia (que antes de aparecer para o Brasil todo, mantinha uma promissora carreira na Bahia). O carro chefe do disco é o hino Garota na Chuva, que demonstra o talento de compositora de Edineia, responsável por criar um refrão que gruda na cabeça do ouvinte logo na primeira audição. A faixa tem potencial para ser o hit do verão no carnaval de Salvador (BA). Outras boas canções com cara de sucesso são Deusa do Amor, Deusa do Amor, Estrela de Hollywood, Coração de Vidro, Pretinho Toda Pop.

E se depender do êxito que Edineia atingiu na internet, sua carreira promete. Afinal, ela foi um dos assuntos mais falados no Twitter no mês de setembro, ficando por quase três dias nos Trend Topics nacionais. Seu primeiro clipe, Garota na Chuva, gravado em uma cachoeira, recebe a média de 50 mil visualizações diárias, cravando a impressionante marca de 3 milhões de views no YouTube. Fora isso, há probabilidade de que em breve Edineia possa expandir suas atuações no mundo artístico e se apresentar em uma peça teatral. Seu manager, Carlos Amorim estuda essa possibilidade e garante que as chances para isso se tornar realidade são imensas – com tanto que não a atrapalhe em sua disputada agenda de shows.

Para ouvir Edineia Macedo
Twitter oficial: www.twitter.com/EdineiaMacedo

Contato para shows:
Carlos Amorim Produções
(75) 9189-5842
amorimprod@hotmail.com

Quarta-feira, Setembro 28, 2011

Edinéia Macedo Já é sucesso no Brasil


Natural de Mutuípe (BA), a cantora Edineia Macedo é, sem dúvida, o grande meme do momento na internet. Seu vídeo “Garota na Chuva” alcançou a incrível marca de 500 mil visualizações espontâneas no YouTube em pouco mais de uma semana. E assim, despertou o interesse da mídia em geral. Em seu blog no portal G1, Zeca Camargo escreveu dois textos a respeito dela.
O programa Pânico na TV, por sua vez, foi até a cidade natal de Edineia fazer uma matéria especial. Embora o humorístico tenha a fama de ser rude nas abordagens, dessa vez a equipe liderada por Sabrina Sato seguiu uma linha menos grosseira (ainda assim sensacionalista). Dessa forma, na matéria, pouco foi citado a respeito da aparência exótica da cantora e não aconteceram avaliações de seu trabalho.
Pelo contrário. Inacreditavelmente, o Pânico cedeu espaço para Edineia comentar a própria carreira. E como a entrevista foi um sucesso entre os telespectadores, a atração liderada por Emílio Surita continuará explorando a história da artista nos próximos domingos, com uma campanha que visa ajudar a moça a realizar o sonho de se tornar uma popstar em nível nacional.
O que não será simples, já que memes têm vida curta. Vide o caso recente da Banda Mais Bonita da Cidade, que apesar de continuar na ativa, já não atrai tanto a atenção da mídia. Porém, Edinéia tem um plano de carreira. Empresariada por Carlos Amorim, a cantora e compositora tem figurado em cadernos de cultura, programas de auditório e de rádio do Sul e do Sudeste, regiões onde ela pretende excursionar e atingir a fama. Sua superexposição na mídia garantiu até mesmo um dueto com Ivete Sangalo, que será lançado ainda esse mês.
Não existe fórmula para esse sucesso. Edineia atingiu êxito por meio de uma música despretensiosa e interessante. Com 8 Cds lançados e um DVD (Uma Pop Star), a artista tem utilizado as oportunidades recentes para superar o prazo de validade de um viral internético e finalmente deixar de ser conhecida apenas regionalmente. Mesmo que não consiga, um grande feito ela já tem no currículo: emplacar a música “Garota na Chuva” como o hit do mês de agosto de 2011. E o melhor: tudo isso de forma espontânea, sem pagamento de jabá ou plano de marketing por trás.
(Por Helder Maldonado)

Segunda-feira, Agosto 29, 2011

A pop star Edineia macedo deixa o Global Zeca Camargo sem palavras



seg, 29/08/11
por Zeca Camargo |
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A pergunta que uso para o título do post de hoje foi enviada pela Bruna, em um dos mais de cem comentários inspirados pelos clipes de Edinéia Macedo – meu tema da última quinta-feira.Entre tantas – e tão, hum, apaixonadas – opiniões que a nova “muzá” do pop brasileiro provocou neste espaço, achei que a da Bruna trazia a melhor colocação retórica. Afinal, depois de assistir aos vídeos de “Garota na chuva” (fui só eu que fiquei com esse refrão na cabeça durante todo o fim-de-semana?) e o tal “Clipe 6” (o da escola!), nada mais natural do que fazer uma exame de consciência e tentar tirar, de um questionamento pessoal, uma explicação para um comportamento universal.

Muita teoria para um assunto tão banal? Bem, espero que você já tenha acostumado com a teimosa tendência deste blog – que, daqui a um mês completa cinco anos – de tratar qualquer tópico da cultura pop com “seriedade”, seja Rebecca Black, Radiohead, “Magali dançando no Largo da Carioca”, “Se beber não case”, “A árvore da vida”, Adele, “Capitu”, novela das 9h, Paul Auster, Homem-aranha, Stephany, Beyoncé! Por isso, quando recebi os links dessas duas músicas de Edinéia, tremi!

Estaria eu à altura de discutir um novo fenômeno pop como esse – sem nenhum viés, sem nenhum preconceito, sem usar um juízo de valor? Não estava seguro, e por isso mesmo, pedi sua ajuda. Queria saber a sua reação a esse, digamos, produto cultural. Preferi colecionar opiniões variadas para só então me expressar. Sabia que poderia contar com os olhares astutos – e as opiniões afiadas – de quem passa por aqui. E não me decepcionei.

A Andrea, conterrânea baiana da cantora, mandou: “Aqui em Salvador Edinéia é sucesso, ainda mais depois de descobrirmos que ela é de Mutuípe/BA, terra de vários colegas de trabalho” (Andrea ainda me ofereceu uma entrevista exclusiva com Edinéia – que estou ainda ponderando). A Gabriela Lima, discorrendo sobre as possibilidades infinitas dessa ferramenta chamada internet colocou: “Diante destes vídeos fiquei pensando, será que as pessoas realmente não sabem como utilizá-la ou nós que ditamos que o uso com o qual algumas pessoas o fazem é errôneo?”. Numa provocação, digamos, mais “pessoal”, Adriano Mazzon evocou ninguém menos do que Ivete Sangalo e Cláudia Leitte para colocar Edinéia nas alturas: “Porém, uma diferença teria a autora de ‘Cantando (sic) na Chuva’ das duas musas do Axé: a primeira possui personalidade, o que é elementar num artista” – foi isso mesmo, né Adriano? O George Luiz também partiu para a provocação, mas de um outro ângulo: “Pessoas fazem arte ridícula para ser contemplada por outras pessoas ridículas. Esse é ponto ruim da net: é aberta a todos, até para quem não deveria. Ou será que isso também é um ponto bom?”. Ainda mais radical, Giovanni levanta a bandeira do preconceito, e argumenta: “O Brasil é, sem dúvida, um dos países com a maior diversidade cultural do planeta. Quem não consegue viver com isso, não deveria se dizer brasileiro”.

Teve gente que, como a Marina, reconheceu em Edinéia um talento a ser lapidado: “Eu já tinha visto este vídeo e hoje dei risada novamente, eu achei que a voz não é tão má, precisa de muita produção ali”. Com o que eu desconfio ser uma pitada de ironia, Tede Sampaio escreveu: “(Ela) pode até não seguir os padrões que a música dita de boa qualidade prega, mas ninguém pode discordar que essa garota tem força de vontade”. Mas muita gente também simplesmente reprovou a tentativa da baiana de buscar o estrelato, como a Cinthia Carvaho que, depois de concordar comigo com relação à capacidade incrível dela e de suas bailarinas não escorregarem na pedra lisa e molhada, declarou: “Eu senti vergonha por ela”. E a Dani, sem esperanças, pediu: “Edinéia agora é pop star. Oremos”…

Mas mais interessante do que julgar o que estamos vendo – no caso, alguns clipes toscos de músicas que esboçam uma possibilidade de fazer sucesso pop na voz de uma garota (na chuva!) que parece ter mais perseverança do que talento – a discussão que eu queria provocar era outra. E a Bruna, com sua pergunta, acertou em cheio: o que será que move as pessoas a tal?

De fato, o que mais me chama a atenção na “saga Edinéia” é a vontade de se exibir – de procurar uma platéia. Sei bem que, como pessoa pública, que apresenta um dos programas mais populares da televisão brasileira, eu talvez tenha um viés para entrar nessa discussão. Mas me dê um desconto e venha refletir comigo: do que as pessoas são capazes para sair do anonimato? Uma artista como Edinéia tem menos valor do que uma cantora superproduzida pela máquina do pop? E ainda, será que somos obrigados a engolir qualquer coisa, simplesmente porque todo mundo está clicando para ver aquilo? São perguntas delicadas de se responder, por isso, vamos tratar delas separadamente – começando pela última.

Como contei no post anterior, recebi os vídeos de Edinéia de uma amiga – e já na condição de “sucesso da internet”. Como confio bastante no gosto – e no humor e na inteligência – dessa amiga, não pensei duas vezes antes de clicar para ver do que se tratava. A primeira coisa que me chamou atenção em “Garota na chuva”, porém, não foi a própria música, mas o número de acessos que ela tinha no Youtube: quase 500 mil! De onde tinham saído todas aquelas pessoas para assistir ao “hit” de Edinéia? Certamente da internet. Mas por que tantos acessos assim? Bem, porque a internet, claro, vive disso. Aborrecidas no escritório onde trabalham ou solitárias de noite em casa na frente de um computador, as pessoas querem não exatamente se informar, mas se divertir – como qualquer piada, por mais sem graça que seja, tivesse o poder de fazê-las sentir mais vivas. E quem sai na frente nessas horas é sempre o riso mais fácil.

Nesse sentido, Edinéia é um prato cheio. A música é simples – o que logo cria uma identificação com quem ouve. As imagens são inesperadas – quem são aquelas pessoas dançando numa cachoeira (e por que elas não conseguem acertar a coreografia)? E todo o “non sense” do clipe te tira do sério e faz você não acreditar no que está vendo. E há ainda mais um elemento hilário: Edinéia é, pelo menos segundo os parâmetros vigentes de estética, uma beleza bem pouco convencional. E pior (ou melhor!): ela se acha bem mais deliciosa do que a maioria das pessoas que a estão assistindo (aliás, ponto para Edinéia, por sua auto-estima!). Inevitavelmente a primeira reação é o riso – e com ele vem a vontade de dividir essa risada com alguém. Pronto – aí está a receita de mais um sucesso viral!

É essa necessidade de detectar e dividir algo engraçado que nos torna presas fáceis de “mini fenômenos” como esse – e do “vlog do Fernando”, do menino dos mamilos, da dança do quadrado (e pode acrescentar o seu viral favorito aqui). Eu até poderia questionar aqui porque vídeos que não são “engraçadinhos” não têm o mesmo impacto (ou dia mesmo, quando falei dos 20 anos de “Nevermind” LINK PARA POST DE 18de08de11, recebi um monte de sugestões de boas músicas e novas bandas… por que eles não “viram virais”?), mas o que é mais interessante assinalar é que essas coisas são passageiras, porque nosso apetite de internauta não tolera a monotonia. Passada a “febre” de ver Edinéia, quem vai realmente se interessar pela carreira dela? (Ok, aceito o argumento de que “Menino sexy” , o primeiro clipe de Stefhany na sua fase “profissional”, tem quase um milhão e meio de cliques, mas qual refrão vem primeiro na sua cabeça, esse ou o de “Absoluta”?). A resposta para essa pergunta, claro, pouco importa – quando Edinéia estiver preparando seu próximo passo, nós certamente já vamos estar rindo de outra coisa…

Agora, que valor artístico tem Edinéia? Depende de quais critérios você quiser usar para julgar. Não sei se teria a ousadia do Adriano (citado acima) de cutucar fãs de artistas tão queridos – e competentes – como Ivete e “Claudinha”. Esse tipo de comparação, a meu ver, não leva a nada e despreza justamente o ponto de vista mais importante num debate como esse – o de avaliar cada artista pelo que ele é. O mais interessante aí é ver a dimensão que esse artista tem – e se ele está conseguindo falar com um grupo razoável de pessoas.

Para isso, faço uma pausa para divulgação – que, a princípio vai parecer gratuita, mas você já vai entender que não é. Anos atrás, fui a um curso sobre Fernando Pessoa, dado por um músico e poeta extremamente respeitado. As palestras eram brilhantes – e cumpriam a missão que uma boa aula sempre deve ter: a de nos fazer interessar por um assunto que talvez achássemos que conhecíamos. Não vou aqui descrever os pontos altos desse encontro, mas me lembrei dele apenas por uma passagem em que o nosso “mestre” fazia uma relação entre a poesia que uma menina adolescente escrevia em seu diário e os versos incomparavelmente mais universais de Pessoa. Será que o poema da menina não tinha valor algum? Claro que tinha, argumentava nosso palestrante – mas só para a garota que o escrevia. O que acontece com uma grande obra de arte (isto é, com um poema de Pessoa, por exemplo) é que aquilo tem um significado fortíssimo não só para o autor, mas também para uma legião de pessoas que se depara com ela. Assim, quando mais poderosa a arte, mais fundo ela vai falar com todos os seres humanos – já que arte é, ninguém duvida, uma das mais nobres características que nos torna justamente humanos.

Voltando a Edinéia, evidentemente ela está bem mais para o diário da menina do que para Fernando Pessoa. Mas, usando a mesma analogia, seu “diário” não está exatamente escondido numa gaveta trancada, sem ninguém poder ler. Pelo contrário, pelo menos meio milhão de pessoas já foi conferir o que Edinéia tem para dizer – para cantar, para dançar… E isso empresta uma certa relevância a ela. Sei que número de acessos na internet não é tudo (ainda não me conformo de “Friday” ter tido muito mais cliques que “Judas”!), mas o Youtube, se não é um bom parâmetro de qualidade, pelo menos serve para nos dar a dimensão de quantas pessoas ficaram interessadas em conferir aquele trabalho. “Garota na chuva” pode não traduzir a fina flor do seu gosto, cultivado no melhor da MPB – mas não precisa brigar com quem gosta de assisti-lo uma, duas, cem vezes.

E agora nos resta só mais uma pergunta para responder –aquela: “do que as pessoas são capazes para sair do anonimato?”. Bem, essa é fácil: são capazes de tudo – absolutamente tudo. Eu não tenho nenhuma dúvida disso, e quis justamente terminar o post de hoje com essa mensagem simples. Nós vivemos uma adorável era de “vale tudo” – e quem ainda tem problemas com isso, é melhor nem imaginar como vai ser o nosso futuro…

Aliás, por falar nele, eu vou hoje conferir uma nova – ou melhor, uma revisitada – versão sobre ele que essa semana chegou aos cinemas por aqui. Acho que você desconfia do que eu estou falando – mas se quiser ter certeza, volte aqui na quinta, pois quero justamente escrever sobre esse filme.

O refrão nosso de cada dia

“Vamos falar do norte”, Bando de Tangarás – vou pedir ajuda aos Tangarás para brincar mais um pouco com seus critérios para julgar o que é “bom” e o que é “ruim”. Eu sou fã dessa música, registrada aqui no que eu costumo brincar que é o “primeiro” videoclipe brasileiro. E que, por isso mesmo, é bem tosco. Mas será que você vai usar apenas o critério estético para julgar essa pérola? Se você sabe a história do Bando de Tangarás, está, claro, fora da brincadeira. Mas quem está sendo apresentado a ele pela primeira vez, ouça tudo primeiro, formule uma opinião – e só depois dá uma pesquisada na internet sobre quem são essas “figuras” (especialmente um certo tipo curioso, de chapéu largo e violão branco, no alto à esquerda…). De minha parte, fã que sou dos Tangarás, quero apenas deixar registrado que, mais sensacional que o próprio refrão (Quando nós saímos do Norte/ Foi pra no mundo mostrar / Como canta aqui nesta terra / Um bando de tangarás), é o “ai” que o cantor solta cada vez antes de cantá-lo…

Eu não sei o que dizer sobre isso

qui, 25/08/11
por Zeca Camargo |
categoria Todas

Eis que, depois de quase cinco anos de blog, eu me encontro sem palavras.

Ontem recebi um email de uma amiga “apresentando” essa “nova pop star”. A mensagem vinha apenas com dois links – um para a música “Garota na chuva”, e outro para algo enigmaticamente batizado de “Clipe 6” – se bem que eu arriscaria dizer que a música se chama “Adímirador” (com essa grafia mesmo), ou até, na sua versão mais longa “Eu vi sua foto dentro do diário”. E minha amiga me desafiava a escolher qual dos dois vídeos era o, hum, melhor.

Repito, eu fiquei sem palavras – e peço sua ajuda. Não para eleger o melhor – acho que fico com “Garota na chuva”, pelo inegável charme da troca de sílabas tônicas (musa vira “muzá”; folhas, “folhás”) e pelo esforço sobre-humano da cantora e das bailarinas de dançar uma elaborada coreografia em cima de uma pedra de cachoeira por onde a água não para de passar (até o Homem-aranha escorregaria ali – como elas conseguem?). Enfim, não quero abrir uma competição vazia entre um clipe ou outro, mas sim te desafiar a fazer algum comentário sobre… esse novo fenômeno da internet.

Farei minhas as suas palavras – prometo. Pois depois disso, sinto-me impotente, mudo, sem inspiração – ou, quem sabe, tão embriagado de inspiração que nem sei mais como me expressar. E não vale ligar no número que está junto com esses vídeos – que, numa rápida pesquisa, descobri que é de Mutuípe, interior da Bahia. Queria sua opinião sem interferências externas. Ajude esse formador de opinião a… formar uma opinião.

O refrão nosso de cada dia
“No me castigues”, Catherine
– para não destoar dos vídeos que sugeri acima, aqui vai uma artista que habita este mesmo universo. Ao contrário de “Garota na chuva” e “Clipe 6”, eu acredito em cada palavra que Catherine canta. Isso é que é sofrer por amor! Em tempo: já tentei procurar a letra dessa música nos quatro cantos da internet – sem sucesso. Meu espanhol até que não é ruim, mas não está à altura da interpretação de Catherine. Será que você pode me ajudar nisso também?

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